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Uma sombra que atravessa a História

Um eclipse solar dura poucos minutos. Mas ao longo dos séculos, esses minutos de escuridão súbita já pararam guerras, revelaram elementos químicos e confirmaram, ou derrubaram, teorias inteiras sobre o funcionamento do Universo. Estes são sete momentos em que a escuridão permitiu iluminar o conhecimento humano.
Linha do tempo — Eclipses que mudaram a ciência

Uma sombra que atravessa a história

Sete momentos em que a Lua, ao tapar o Sol, também iluminou o conhecimento humano. Clique em cada ilustração para ler a história.

Dois exércitos, o dos Lídios e o dos Medos, enfrentavam-se há anos numa guerra sem fim, algures na atual Turquia. A meio de uma batalha, o céu escureceu de repente, em pleno dia. Assustados, os soldados largaram as armas e a guerra terminou ali mesmo.

Diz a tradição que o filósofo grego Tales de Mileto tinha previsto aquele escurecimento, mas não sabemos ao certo como o fez…

Nesta altura, o astrónomo alemão Johannes Kepler dedicava-se a estudar anos de observações cuidadosas feitas pelo dinamarquês Tycho Brahe. Ao analisar esses dados, Kepler percebeu algo que os planetas não giram à volta do Sol em círculos perfeitos, mas em elipses (órbitas ligeiramente achatadas, com o Sol não no centro, mas num dos focos).

Esta descoberta tornou-se a primeira das célebres Leis de Kepler. Pela primeira vez, alguém descrevia o movimento dos planetas com uma precisão matemática que batia certo com o que se observava no céu.

Durante muito tempo, pensou-se que a luz se propagava instantaneamente, ou seja, que se via tudo no exato momento em que acontecia, sem qualquer atraso. O astrónomo dinamarquês Ole Rømer mudou essa ideia para sempre.

Rømer andava a observar os eclipses causados pelas luas de Júpiter, que desaparecem e reaparecem regularmente atrás do planeta. Reparou que esses eclipses pareciam atrasar-se ou adiantar-se, dependendo da distância entre a Terra e Júpiter naquele momento. A única explicação possível era que a luz demorava tempo a viajar. Foi assim que, pela primeira vez, alguém mediu, ainda que de forma aproximada, a velocidade da luz.

Em 1868, o astrónomo francês Pierre Janssen viajou até Guntoor, na Índia, para observar um eclipse total do Sol. Durante os poucos minutos de escuridão, apontou o seu espetroscópio (um instrumento que decompõe a luz), para a coroa solar (a atmosfera exterior do Sol), normalmente invisível por causa do brilho ofuscante do disco solar.

No espetro de luz que captou, Janssen encontrou uma risca que não correspondia a nenhum elemento químico conhecido na Terra. Tinha acabado de descobrir o hélio, batizado a partir de Helios, o nome grego do Sol, que só 27 anos depois viria a ser encontrado na Terra.

Em 1919, dois grupos de cientistas viajaram para pontos opostos do globo: Sobral, no Brasil, e a ilha do Príncipe, uma colónia portuguesa da altura. O objetivo era observar o mesmo eclipse total para testar a Teoria da Relatividade Geral de Albert Einstein, segundo a qual a gravidade de um corpo maciço, como o Sol, consegue curvar o próprio caminho da luz.

Durante o eclipse, com o brilho do Sol tapado pela Lua, foi possível fotografar estrelas que apareciam muito perto do disco solar no céu. Ao comparar essas fotografias com imagens das mesmas estrelas tiradas noutra altura do ano, os cientistas confirmaram que a luz das estrelas se desviava exatamente na quantidade prevista por Einstein. Da noite para o dia, um físico até então pouco conhecido do público tornou-se uma celebridade mundial!

A 30 de junho de 1973, um grupo de cientistas embarcou num avião supersónico Concorde com um objetivo pouco comum: voar mais depressa do que a sombra da Lua sobre a Terra, prolongando ao máximo o tempo de observação de um eclipse total.

A missão resultou. Enquanto um eclipse total visto do solo dura, no máximo, uns sete minutos, a equipa a bordo do Concorde conseguiu manter-se no eclipse durante muito mais tempo.

A 12 de agosto de 2026, a sombra da Lua volta a tocar o território português. A totalidade, ou seja, o momento em que o Sol fica completamente escondido atrás da Lua, será visível a partir de Bragança, onde durará cerca de 26 segundos.

Não é preciso um telescópio, ser cientista, nem viajar para o outro lado do mundo… Basta olhar para cima, com a proteção adequada para os olhos, no momento certo. Depois de Tales de Mileto, Kepler e muitos outros, chega agora a vez de uma nova geração testemunhar, ao vivo, aquilo que só os livros costumam contar.

Não é preciso um telescópio, nem ser cientista, nem tão pouco viajar para o outro lado do mundo. Basta olhar para cima, com a proteção adequada para os olhos, no momento certo. Depois de Tales de Mileto, Kepler, Rømer, Janssen, Eddington e da tripulação do Concorde, chega agora a nossa vez de testemunhar aquilo que aprendemos nos livros.

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